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9 de Outubro de 2012 | | | |

O país como quartel

Guatemala: “não podemos permitir nem mais um massacre”

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Valle del Polochic, Santa Cruz Barillas, Totonicapán. Estas populações guatemaltecas sofreram a mais cruenta repressão e a conseguinte morte de camponeses indígenas mayas identificando o atual governo com o pior da época de guerra interna contrainsurgente que deixara um saldo de 300 mil vítimas.

No país centroamericano, já sob o governo de Álvaro Cólom, mas muito mais forte na atual administração de Otto Pérez Molina, o protesto social é criminalizado através da mídia ou simplesmente se afoga em sangue mediante as forças repressivas.

Tudo isso perante uma comunidade internacional que, oficialmente, permanece indiferente apesar da crueldade dos acontecimentos. O último deles, neste 4 de outubro, acabou com a morte de oito manifestantes no departamento de Totonicapán, enquanto se mobilizavam pacificamente contra o aumento da tarifa elétrica e uma reforma constitucional que militariza de fato e de direito o país.

Retorno à força

“Consideramos que realmente há um retorno às formas violentas de responder às demandas sociais. Nosso país viveu 36 anos de conflito armado, aplicou-se um genocídio contra nossos povos e houve mais de 300 mil mortos em menos de cinco anos”, conta com angústia Domingo Hernández, dirigente da Convergência Maya Waqib’Kej, entrevistado por Rádio Mundo Real.

O dirigente indica que o projeto neoliberal promovido na Guatemala, com inúmeras concessões territoriais a indústrias extrativas e privatização de áreas públicas, compondo o que Domingo chama de neocolonialismo, requer da violência para derrotar a resistência comunitária.

“Na Guatemala as comunidades se organizam e resistem. Foi assim em Totonicapán onde se bloqueia a estrada com três demandas muito claras: as reformas constitucionais, o alto preço da energia e uma reforma educativa que nos fatos é uma privatização da educação”, diz Domingo.

“Na Guatemala precisamos iniciar urgentemente um processo de democratização. Neste governo no lo encontramos. Porque o pensamento militar é vertical, autoritário, machista, que não permite que a cidadania, os povos indígenas, as mulheres e a juventude expressem suas opiniões. Este estado, dirigido por militares, quer ver nosso país como um quartel”, indica mais adiante na entrevista o dirigente maya.

Desmentidos

Como era de se esperar, o presidente guatemalteco disse que a responsabilidade pelas mortes em Totonicapán é das organizações sociais e embora inicialmente negou que os policiais tenham utilizado suas armas, a divulgação posterior de fotografias que desmentiam isso fez com que a versão oficial variasse, afirmando-se logo que os militares atiraram “ao ar” para dispersar os manifestantes.

No lugar também havia seguranças privados que poderiam ter participado da matança. Além dos oito mortos, 40 pessoas foram feridas.

A agência AFP informou que o escritório das Nações Unidas na Guatemala enviou uma missão de observadores à zona do massacre. Nela estava presente a líder indígena e Prêmio Nobel da Paz em 1992, Rigoberta Menchú, que disse ter achado vários cartuchos de fusil M-16, utilizados pelo Exército.

A morte dos indígenas deixou consternada a Guatemala. O Conselho Ecumênico Cristão da Guatemala, ao que pertencem várias igrejas, dentre elas a Católica, Evangélica e Luterana, se uniu à manifestações de repúdio à violência da quinta-feira passada, e exigiu ao Governo o fim da repressão às comunidades indígenas, conforme o portal milenio.com.

Por sua vez, o Procurador dos Direitos Humanos, Jorge De León, anunciou que se transformará em garantidor do processo de investigação.

Sem se posicionar, o secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, lamentou a morte dos seis camponeses e pediu o esclarecimento urgente da origem do acontecimento, "como passo imprescindível para pacificar os ânimos e abrir passo para o diálogo".

Não mais massacres

Domingo Hernández foi claro em suas declarações à Rádio Mundo Real: “não podemos permitir mais massacres”, disse, afirmando que as organizações preparam manifestações para denunciar a repressão sistemática, comparecendo inclusive na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

“Pedimos à comunidade internacional estar atenta ao que está acontecendo na Guatemala. Não permitamos um retorno ao passado, a novos massacres. Os povos da Guatemala queremos viver em paz e resgatar a Guatemala das mãos da oligarquia e dos militares. Recuperar a democracia que nos tem tirado há centenas de anos”, indicou Domingo.

Entrevista com Domingo Hernández em áudio anexo.

(CC) 2012 Radio Monde Réel

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